Houve campeões brasileiros antes 1971?
Segundo o jornalista Ricardo Fontes Mendes “a imprensa brasileira surgiu na primeira década do século XIX. Um prelo chegou ao país dentro do porão do navio que transportou a corte portuguesa em fuga para a colônia. O equipamento era da Secretaria da Guerra e foi utilizado por Dom João VI na produção de A Gazeta do Rio de Janeiro. Antes desse jornal, em 1808, Hipólito José da Costa produzia em Londres a edição de lançamento do Correio Braziliense.” A Associação Brtsileira de Imprensa, ABI, foi fundada em 1908,no dia 7 de abril, no Rio de Janeiro, com a presença de apenas 8 jornalistas, segundo o autor citado.
Para Fontes Mendes, “foi graças a ação da ABI junto ao governo Getulista, que se iniciou na Faculdade Nacional de Filosofia, na Universidade do Brasil, a formação superior para a área. Os primeiros alunos ingressaram na instituição em 1948, com apoio da multinacional fabricante de cigarros Souza Cruz e contra a vontade dos empresários de comunicação. Em 1956, era criada em São Paulo a Faculdade de Jornalismo Cásper Líbero, com influência curricular norte-americana, voltada para a prática.”
Em conseqüência, durante cerca de 150 anos, não houve jornalistas com curso superior formados especificamente nessa área.
Nelson Rodrigues, por exemplo,a bandonou os estudos aos 15 anos de idade,em 1927, quando cursava a terceira série do ginásio no Curso Normal de Preparatórios. Nunca mais voltou à escola, apesar do esforço desenvolvido por seu pai.
Já Cláudio Abramo, para citar um outro exemplo, fez apenas o curso primário e os cursos de madureza do ginásio e do colégio, estes depois de adulto. Não fez curso universitário.
As regras mudaram a partir de 1969
A obrigatoriedade do diploma a nível superior para o exercício da profissão de jornalista, em sua primeira versão, só surgiu com o decreto – lei n° 972, de 17 de outubro de 1969, sob a égide da ditadura militar de Garrastazu Médici.
A partir de então, as regras para os jornalistas mudaram. Há quem ache correto o título universitário em Jornalismo para exercer esta profissão, há quem não ache. É uma discussão interessante, porém não é objetivo deste texto entrar neste debate.
A meta deste texto é, estando todos nós no ano de 2009, perguntar, olhando retrospectivamente para a História: Nelson Rodrigues e Cláudio Abramo, foram jornalistas, ainda que não tivessem concluído o 3º grau?
Mais ainda, os profissionais mais recentes como Juca Kfoury, para citar pena um exemplo é jornalista?
A resposta,obvia, é uma só: claro que sim!. Brilhante jornalista,diga-se em passagem. Porém ,pelo que consta em sua biografia, Juca não fez um curso universitário em Jornalismo, mas sim em Ciências Sociais pela USP. Como ficou a situação de todos os profissionais que,como Juca, trabalhavam como jornalistas mas não tinham o Diploma de Jornalista? .
Nova mudança de regras
Em 1985, novamente alteração nas regras .Para muito melhor.Durante o governo de José Sarney,através do decreto n° 91.902 de 11 de novembro deste ano, os jornalistas que,mesmo sem diploma universitário,já exerciam esta profissão por um determinado número de anos (eram chamados de provisionados na época), obtiveram o direito de obter seu registro como jornalista em sua Carteira Profissional , através das Delegacias Regionais de Trabalho. Nada mais justo que esta lei. Quem já escrevia regularmente antes de 1979 ,obtinha este direito legítimo.
Por ter falecido em 1980, Nelson Rodrigues não se beneficiou desta lei. No entanto, por mérito profissional e prática reconhecida, Nelson Rodrigues ,Cláudio Abramo e tantos outros profissionais de outras épocas, independente das mudanças da lei, são reconhecidos como jornalistas profissionais, e, no caso específico, dois dos melhores que a Imprensa brasileira já conheceu.
No entanto, com certeza haverá quem discorde destas mudanças na lei. Para alguns, só é jornalista quem concluiu o terceiro grau em alguma faculdade de Jornalismo,o u seja, há quem divida a história de forma anacrônica em antes e depois de 1969, quando surgiu a obrigatoriedade do diploma. A verdade,no entanto, é que o jornalismo existiu muito antes de 1969 e todos os que trabalhavam sem diploma universitário foram unificados numa mesma categoria, a de jornalista profissional junto aos que obtiveram o diploma em alguma faculdade de jornalismo.
Essa necessária unificação foi exigência da história, das empresas ligadas aos meios de comunicação e da sociedade.
Que clubes foram campeões brasileiros antes de 1971?
No história do futebol brasileiro, de maneira similar à história dos jornalista no Brasil, há quem divida a História em antes e depois de 1971. Durante muitas e muitas décadas, os torneios de futebol tinham amplitude apenas local ou regional. Passaram aos poucos a ter uma dimensão estadual, como por exemplo, o campeonato paulista, gaúcho, carioca ou mineiro.
Em 1959, após da criação da Taça Libertadores da América, a antiga CBD, Confederação Brasileira de Desportos, criou a Taça Brasil, pela necessidade de haver, oficialmente, um time brasileiro nesta disputa sul-americana. A Taça Brasil durou até 1967, com fórmulas variáveis ao longo deste tempo, mas, em síntese, envolvia os campeões de quase todos os estados do país, num sistema mata-mata, similar ao que é hoje a Copa do Brasil. O campeão da Taça Brasil representava nosso país na Libertadores da América. O Santos foi campeão por 5 vezes, o Palmeiras por 2 vezes, por exemplo.
De 1967 a 1970, a CBD criou o Robertão, como ficou chamado o Roberto Gomes Pedrosa, que passou a indicar o representante brasileiro na Libertadores. O Robertão já tinha uma feição de campeonato, não copa, e abrigava os melhores times do Rio, São Paulo, Minas e Rio Grande do Sul.
Em 1971,o Robertão deu lugar ao chamado Campeonato Brasileiro, nome que perdura até hoje, e que, entre outras coisas, indica os representantes brasileiros na Libertadores.
Neste período, por exemplo, o Santos, além de ganhar a Taça Brasil, conquistou por 2 vezes a Libertadores e,em conseqüência, ao vencer clubes europeus, foi bicampeão mundial em 1962/63.
Partindo do princípio que é um fato da história a existência de futebol no Brasil antes de 1971, com gloriosos jogadores como Pelé, Tostão, Ademir da Guia, considerando que o Santos já era bicampeão da Libertadores e do mundo, considerando que a seleção do Brasil já era tricampeão mundial, fica uma pergunta: quais times foram campeões brasileiros antes desta data?
Uma possível resposta: nem ligo!!!
Assim respondeu o brilhante jornalista Juca Kfoury. Esta incrível resposta foi dada em sua coluna, na Folha de São Paulo, em 29 de março de 2009. Quem foram os campeões brasileiros antes de 1971?.Nem ligo!.
O que fazer então, caro Juca, por quem tenho a maior admiração profissional, bem como por sua luta anterior contra o regime ditatorial?
Não ligar seria equivalente a banir a história do futebol brasileiro anterior a 1971 ,ou seja, considera-la inexistente. Na melhor das hipóteses, não digna de registro histórico importante, banal, secundária.
Há, entre os jornalistas esportivos do país quem também só considere a história a partir de 1971 e, normalmente, encontram justificativas as mais diversas e equivocadas para analisar o período anterior. No entanto, fica sempre um buraco negro, sem resposta à pergunta:quem foram os campeões brasileiros antes de 1971? Até onde eu tenha conhecimento, nenhum deles ousa afirmar abertamente que não houve campeões antes desta data. No entanto, ao considerarem apenas de 1971 para a frente, chegam , de maneira inconsciente e não explícita, à mesma conclusão: não houve campeões antes de 1971. Mutilam a história.
Outra resposta: campeões provisionados à espera da homologação oficial da CBF?
Assim como na história do jornalismo brasileiro houve jornalistas provisionados a partir de 1969,quando da obrigatoriedade do diploma universitário, poderíamos sugerir que os vencedores da Taça Brasil ou do Robertão fossem denominados campeões brasileiros provisionados, ou seja, foram campeões mas a CBF não lhes deu ainda o diploma universitário de campeão brasileiro de futebol.
Assim sendo, teríamos seis campeões provisionados: Santos, Palmeiras , Cruzeiro, Bahia, Botafogo e Fluminense.
Por uma campanha em todos os níveis da sociedade e não apenas na CBF
O que poderiam fazer estes seis times? Brigar, fazer uma campanha por todo o país, trazer este debate à tona, envolver jornalistas esportivos e formadores de opinião ,levar a discussão aos milhões de apaixonados torcedores espalhados por este país do futebol. Para que?. Para obrigar a CBF a tomar uma posição a respeito deste tema, já que é esta entidade,em última análise,a oficializar ou não a história. Não se pode deixar a história do futebol no limbo, ou, dizer NÃO LIGO!!
Esta campanha já está começando. Amanhã, 31 de março, um dossiê elaborado e assinado por Santos, Palmeiras, Botafogo, Fluminense , Cruzeiro e Bahia será formalmente entregue à CBF propondo a unificação dos títulos. A CBF terá um determinado prazo para julgar esta questão, ou seja, para dar ou não a equivalência de títulos aos campeões anteriores e posteriores a 1971.
Só através de uma imensa campanha é que, algum dia, poderá haver uma unificação de títulos de antes de 1971 com o pós 1971 , tal qual um dia o governo federal foi obrigado a fazer,dada a pressão e à necessidade histórica.Em 1985, houve a unificação entre os jornalistas que não tinham diploma com os jornalistas possuidores deste título universitário. A partir de 1985, todos se alçaram à condição de jornalista profissionais, numa única categoria profissional. Nada mais justo.
Também é assim que devemos fazer com todos os legítimos campeões do Brasil , os de antes de 1971 com os pós -1971.
Enio Bucchioni,
Dedico este texto a Mario Pedrosa,com quem aprendi as melhores lições de vida em 1971 ,no Chile, durante o forçado exílio. Mário foi, entre outras coisas, um dos grandes jornalistas do país. Não era formado em faculdade de jornalismo. Faleceu antes da unificação dos títulos dos jornalistas. Com ele aprendi a ter uma visão de mundo que mantenho até hoje. Com ele aprendi a lutar até o fim, obstinadamente,pelas idéias que uma pessoa julga verdadeiras e pode comprova-las. A unificação dos títulos virá, mais cedo ou mais tarde, pois a história não se apaga, tal qual fazia o Grande Irmão na ficção de George Orwell. Todo brasileiro de minha geração ainda tem na cabeça os maravilhosos times do Santos, de Pelé e Coutinho, do Palmeiras, de Ademir da Guia e Chinesinho, do Cruzeiro, de Tostão e Dirceu Lopes. Com unificação ou não, estes times e jogadores fizeram a história do futebol e foram , de fato (e temos de lutar pelo direito) campeões brasileiros de pelos seus respectivos clubes. Ninguém pode alterar a história por tempo indeterminado.Nem o Grande Irmão conseguiu.